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Em DVD - Crítica - Bastardos Inglórios

Existem filmes que assistimos uma ou duas vezes no cinema. Inúmeras vezes em DVD e quando, por fim, é televisionado, assistimos mais uma vez. Olhando para o passado próximo e para o presente, poucos são os filmes que se encaixam nessa descrição: "filmes que não cansamos de assistir". Poucos também são os filmes que permanecem com uma boa média, ou seja, quando você assiste pela primeira vez dá nota nove ou dez, mas quando assistido pela segunda ou terceira vez, geralmente a nota cai, por as imperfeições vão aparecendo. Muito poucos são os filmes que melhoram a cada visita. Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino é assim. É um filme gostoso de assistir. Toda vez que temos oportunidade devemos assistir, e a cada visita, melhora ainda mais. No momento, não sei dizer que "Bastados Inglórios" é um bom vinho, daqueles que se tornam mais deliciosos com o tempo, mas creio que seja assim como todos os filmes de Tarantino. Talvez, para muitos, os filmes de Tarantino sejam bem isso mesmo: vinhos. Que precisam de um bom tempo para serem apreciados. Que precisam de um longo descanso para serem adorados pelas pessoas. Comigo, ao menos, foi assim. Foi só depois de alguns anos que fui aprendendo a gostar do cinema do cineasta. Foi depois de algum tempo que soube apreciar o bom cinema do diretor. Mas aí, eu lhe pergunto: será que são os filmes que precisam esperar um tempo para serem apreciados, ou somos nós que devemos esperar uns anos para, enfim, assisti-los? Será que somos nós que devemos aprender com certas coisas, e assim, termos olhos limpos para "enxergá-los"? Um pouco dos dois. O tempo é bom para ambos. E os filmes de Tarantino, assim como nós, envelhecem e aprendem. Podem se desgastar fisicamente, mas a alma e a experiência jamais se desgastam. Os filmes dele são do tipo que você acha uma coisa hoje e outra completamente diferente daqui uns cinco ou dez anos. Os filmes de Tarantino podem ser muitas coisas, dentre elas um casal. Sim, um casal. Nós, espectadores, somos um e o filme outro e, ás vezes, levamos anos para se entender perfeitamente.

Bastardos Inglórios é claramente um filme de Tarantino. Bastam uns três minutos para ter essa constatação. Um homem corta lenha. Em uma França dominada por nazistas, tal homem esconde uma família de judeus embaixo do assoalho. Eis que chega na casa do pobre cortador de lenha e fazendeiro o Coronel Hans Landa (Chistoph Waltz), conhecido pela alcunha de "o caçador de judeus". É a partir da chegada de Landa que um longo diálogo começa. E é aí que notamos que é um puro filme de Tarantino. O cineasta dá uma aula de como criar tensão e um jogo de gato e rato apenas usando palavras. Cortantes, afiadas, mas proferidas com delicadeza por um maquiavélico Chritoph Waltz. Aos poucos, usando sua inteligência, Landa descobre o que, na verdade, já sabia: embaixo de seus pés há uma foragida família judia. Landa chama seus soldados e sem dó ou piedade, mata toda a família judia. Aliás, "quase" toda, pois a filha, Shosanna escapa. É aí que começa a trama de vingança de Bastardos Inglórios. Shosanna munida de toda a raiva e sede de vingança do mundo, planeja matar os nazistas um por um (ou todos de uma vez). Mas calma, eu não revelei nada de mais, afinal, este brilhante prólogo (primeiro capítulo, na verdade) de Tarantino serve para apresentar alguns personagens, e o que realmente importa é o texto e sua genialidade, e isto, nem seu eu quisesse, conseguiria transpor nesta crítica.

Logo após conhecemos os bastardos inglórios do título. Matando nazistas e arrancando escalpos. Liderados por Aldo Raine (Brad Pitt caricato, mas extremamente divertido), os bastardos arrancam informações dos nazistas e os torturam com todo o gosto. As histórias de Shosanna e dos bastardos caminham paralelamente, até se encontrarem no cinema (de Shosanna, e que será palco do lançamento de um filme alemão. Tal lançamento trará várias figuras nazistas importantes, dentre elas Adolf Hitler), cesto de "ovos podres", local onde a vingança de Shosanna e a missão dos bastardos serão postas em prática. Paro por aqui e não revelarei mais nada sobre a trama. Sobre os bastardos, bem, Tarantino poderia explorá-los melhor. Mostrar mais cenas com os loucos matadores de nazistas, mas infelizmente isto fica apenas na imaginação. Pitt, como já citei, está bem caricato no filme (propositalmente, acredito), mas muito divertido. Seus arrancadores de escalpos também são caricatos: o Urso Judeu (interpretado com vontade por Eli Roth) e o grandão e caladão Hugo Stiglitz (Til Schwelger) são os melhores exemplos. Outro personagem caricato (este com certeza absoluta: propositalmente) é Hitler, que já na sua primeira cena dá chiliques ("Não! Não! Não! Não! Não!").

Em Bastardos Inglórios, constam as frases mais antológicas do ano. Mas o que faz tais frases tornarem-se antológicas? Simples: criatividade e originalidade. Simples frases como "O bar é no globo" e "Attendez la crème", já são repetidas incansavelmente por cinéfilos. Dentre as melhores está aquela? "O trabalho de um bastardo nunca está pronto!". Propositalmente ou não, a frase de efeito acaba se tornando muito pertinente, afinal, lutando com todas as forças ou não, pragas nunca serão dizimadas por completo, tanto que até hoje, aprendizes e seguidores do nazismo ainda estão espalhados mundo a fora. Tarantino além de criar frases afiadas e com muito humor, cria interessantes pensamentos, como a comparação dos judeus com ratos, logo no início do filme. Landa, conversando com o fazendeiro, diz que os ratos não fazem praticamente nada, mas se um deles entrasse em sua casa, você o atacaria sem pensar. O fazendeiro diz que ratos causam doenças. Landa então dá seu "xeque-mate": ele diz que esquilos também causam doenças e são bem parecidos com os ratos, mas mesmo assim, não o mataria. Se você parar para pensar, Landa subjetivamente entrega a raiva inconsequente dos nazistas: eles matam judeus (ratos), que são pessoas iguais as outras, erram da mesma maneira que um alemão ou francês (esquilo), mas inexplicavelmente os judeus são mortos, os alemães ou franceses não. A estrutura narrativa do longa também merece destaque. Dividida em capítulos bem específicos, Tarantino conta história paralelas com maestria. Não se perde entre uma história e outra, e sabe unificá-las perfeitamente. Conhecemos cada história e cada objetivo com calma e muito diálogo. Tudo é bem explicado e contado, provando que Tarantino é um perfeito Forrest Gump.

O aspecto técnico do filme surpreende, principalmente por ter sido filmado e finalizado em apenas oito meses. O filme recebeu merecidas oito indicações ao Oscar 2010. Além das de Melhor Filme, Direção, Ator Coadjuvante e Roteiro Original. O filme foi indicado a Melhor Fotografia (e se Avatar não existisse, era Oscar na certa), Edição (em nenhum momento o ritmo cai, e a montagem da história paralelas são perfeitas e nunca tropeçam), Som e Edição de Som (é bem barulhento sim!). A bela fotografia já merece destaque nas primeiras cenas, principalmente no diálogo de Landa e o francês. A fotografia se sobressai nas cenas externas, com destaque para a cena em que os bastardos interrogam alguns alemães em busca das localizações de outros alemães. Outra área que merece destaque é a trilha sonora, que mesmo não sendo original, chama atenção (as trilhas dos filmes de Tarantino são sempre perfeitas). As músicas dos antigos westerns e as instrumentais (a música que toca nos créditos finais fica impregnada na memória) se encaixam perfeitamente na história.

É impossível dizer com certeza qual a melhor coisa de Bastardos Inglórios, afinal, tudo é excelente no filme. Mas com certeza podemos afirmar que Christoph Waltz é uma das três melhores coisas do filme. Waltz concebe uma interpretação sublime. Rica em detalhes. Da apresentação à falta de modéstia ao exibir seu rótulo (Caçador de Judeus). Do papo conquistador à inteligência e o lado poliglota (o sujeito muda do francês para o inglês, do inglês ao alemão e do alemão ao italiano). Waltz dança entre o estereótipo dos vilões, o que é um perigo, Waltz chega no limite mas nunca cai no precipício. O simples movimento que ele faz para uma personagem repousar a perna na sua é engraçado e único. Waltz, é claro, merece o Oscar.

Tarantino tem um estilo único de direção. Os plano-sequencia, os travellings (verticais e horizontais), os ângulos inclinados, entre outros. O plano-sequencia no saguão do cinema (dura mais de um minuto) é incrível. Mas Tarantino peca um pouquinho ao incluir alguns flashbacks desnecessários (quando Landa chega no jantar em que estão Gobbels e Shosanna, Tarantino mostra um flashback de Shosanna fugindo de Landa no início do filme. Dá a impressão de que Tarantino colocou o flashback apenas para lembrar de que fora ela que fugira de Landa, o que todos já sabiam), como o de Hitler explicando a sua ida à prémiere. Mas são erros pequenos perto de toda a técnica do diretor.

O DVD é bem luxuoso. Tem uma bela capa e um menu estático muito bonito, porém é pobre em seus extras. Trás apenas trailers do filme (teaser, americano, internacional e japonês), Cenas estendidas ou alternativas (nenhuma muito interessante) e "O Orgulho da Nação" na íntegra, com mais de seis minutos de duração. Trás opções de dublagem, mas claro, grande parte é legendada devido as constantes cenas com variados idiomas.

Fico imaginando daqui umas três décadas, nomes como "Tarantino", "Spielberg", "Cameron", "Scorsese", "Jackson" sendo sinônimos de genialidade e ligados diretamente a estilos e maestria, assim como "Hitchcock" e "Kubrick" são. Fico imaginando o grau de respeito que as pessoas impostarão ao pronunciar "a obra-prima do mestre ...", assim como nós cinéfilos falamos daqueles dois senhores recém citados. Talvez o mundo enlouqueça e chame esses nomes como sinônimos de cinema ruim ou de caça-níqueis (o mundo já enlouqueceu, e hoje chama de mestre o que na antigamente era o pior diretor do mundo: Ed Wood, então, tudo é possível), talvez o mundo fique cego e chame fenômenos como Avatar de "caça-níqueis" e filmes como Pulp Fiction de superestimados. Tudo é possível. Mas o que importa é que hoje, esses caras já são tratados como mestres e o futuro, a Deus pertence.

Nota: 9,5

Matheus Pereira

1 comentários:

Esse eu quero o DVD!!!!! mais um que realmente dá gosto de ver, rever, ver mais uma vez, dar uma espiadinha e não cansa!!!

6 de fevereiro de 2010 17:04  

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