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12 Anos de Escravidão é um ponto fora da linha que Steve McQueen desenhou com seus longas anteriores, Fome e Shame. Ainda que possamos reconhecer aqui e ali o estilo marcante do diretor, o conjunto completo é bem diferente. É uma história mais acessível que as anteriores. Se os dois antecessores chocavam pela violência ou pelo teor sexual, este 12 Anos de Escravidão é uma obra mais conservadora, no bom sentido, é claro. Mas não se pode haver enganos: o novo filme de Steve McQueen é corajoso, incisivo. Não é perturbador como Fome ou contemplativo como Shame, mas atinge o espectador de outras formas. O que se vê aqui é um retrato sincero da escravidão, sem estereótipos. Não há o homem branco salvador e herói (como em Lincoln) nem violões rasos. Há, portanto, personagens complexos, como o vivido pelo excelente Benedict Cumberbatch, que compra e possui escravos, pois este era o cotidiano da época, as regras básicas da sociedade. É um sujeito de bom coração, mas ainda assim é escravista, já que se furta dos benefícios de tal barbárie. Outro personagem interessante é aquele vivido por Michael Fassbender, que pode ser encaixar na categoria de vilão. Nas mãos de um ator menos experiente ou talentoso, o personagem poderia se tornar raso, unidimensional; Fassbender, porém, compõe um homem tomado por maldade, de sanidade duvidosa, mas que jamais se transforma em um simples vilão caricato.

Mas 12 Anos de Escravidão tem muitos méritos além dos personagens excelentes. O longa é, também, um primor técnico. A começar pela direção inspirada de McQueen, que novamente investe em planos longos para acompanhar a ação e os personagens. É um trabalho vigoroso, daqueles que se fazem notar, mas não roubam atenção para si. McQueen melhora tudo que já era bom em seus trabalhos anteriores e elimina aquilo que prejudicava em parte as experiências anteriores (Fome e Shame tinham alguns problemas de ritmo). O roteiro de John Ridley tem um formato clássico, que lembram os dramas de antigamente. Há o arco completo do personagem principal, com vários coadjuvantes passando pelo seu caminho. Há todo o lado de superação e esperança. É uma trajetória grandiosa, daquelas marcantes, cheia de momentos de impacto.

Mas nada disso funcionaria, nem direção ou roteiro, sem Chiwetel Ejiofor. Ele é a grande força de 12 Anos de Escravidão. Ejiofor, conhecido por papeis secundários, finalmente ganha um papel em que possa mostrar seu talento. Ele é o centro da história, a alma do filme, e sua atuação é assombrosa. É uma pena, por exemplo, que Ejiofor concorra ao Oscar no ano em que Matthew McConaughey atinge o ápice da ressurreição de sua carreira. Além de Ejiofor, outros dois integrantes do elenco merecem atenção. Michael Fassbender novamente surpreende sob o comando de McQueen e Lupita Nyong’o talvez seja a grande revelação do ano. Resta agora que mais e mais pessoas possam assistir a brilhante história de Solomon Northup e que o filme possa receber a consagração no Oscar. Caso vença o maior prêmio do Cinema, será a primeira vez em ano que o ganhador será aquele que realmente merece tal honraria.

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Fato Curioso: Os grandes favoritos ao Oscar de Melhor Ator este ano, Matthew McConaughey e Chiwetel Ejiofor, trabalharam juntos justamente em um filme que tinha a escravidão como pano de fundo. Amistad, de Steven Spielberg, tinha McConaughey como protagonista, interpretando um advogado que buscava a liberdade de um grupo de escravos que se rebelara em um navio negreiro. Ejiofor, em papel menor, era o tradutor; era ele que traduzia a língua dos escravos para o inglês do advogado.





Crítica - A Menina que Roubava Livros


 
Alguns livros parecem inadaptáveis. Quando lemos, temos a clara impressão de que qualquer um que adapte a história para outras mídias encontrará sérios problemas para transpor as páginas para as telas, palcos, etc. O best-seller A Menina que Roubava Livros de Markus Zusak é um destes livros. Lançado em 2005 o romance foi e ainda é um grande sucesso. Muito se comentou acerca de sua narrativa ligeira e sua narradora peculiar. Mas a história vai muito além e, felizmente, a adaptação aos Cinemas leva isso em conta, aproveitando a rapidez da escrita de Zusak e a presença marcante da estranha narradora. Sendo escrito por Michael Petroni (roteirista com vários fracos exemplares em seu currículo), o roteiro começa idêntico ao livro e vai desenvolvendo a narrativa e os personagens com cuidado durante quase todo o tempo, pecando, infelizmente, nos seus minutos finais, quando resolve apressar as coisas e manter algumas resoluções sem explicação. Ainda assim, se analisada de forma geral, essa adaptação merece inúmeros elogios. Petroni acerta também ao manter-se o mais fiel possível ao material original. Algumas mudanças são realizadas, mas todas são completamente aceitáveis. Ao manter os personagens íntegros e cenas e diálogos quase idênticos, Petroni se mostra inteligente ao respeitar uma história que já nascera praticamente pronta para a adaptação, pois, complexa ou não, A Menina que Roubava Livros sempre foi uma história demasiado cinematográfica, pronta para ganhar as telas.

Mas esta não é uma crítica sobre a adaptação de livro para filme e a comparação entre estes, mas sim sobre uma obra cinematográfica e, como tal, A Menina que Roubava Livros funciona muito bem. O diretor Brian Percival, por exemplo, oriundo de trabalhos na TV (são dele alguns dos melhores episódios de Downton Abbey), compreende o novo formato e se sai muito bem na ambientação de época exigida pela história. Compreendido entre poucos cenários, Percival consegue manter a narrativa fluida mesmo sem sair dos mesmos lugares, e a direção de arte do longa também merece atenção por isso. A Rua Paraíso, onde boa parte da história acontece, é um importante elemento do filme e surge com uma beleza peculiar graças também à bela fotografia. O local, praticamente um personagem, ganha vida nas telas graças ao esmero da produção. Além disso, A Menina que Roubava Livro é beneficiado por um John Williams inspirado, nem tão melodramático nem tão sério como em trabalhos anteriores, ainda que exagerando na orquestração em alguns momentos.

Mas nem tudo funciona. A passagem de tempo, por exemplo, soa artificial e forçada por não mostrar mudanças consideráveis nos personagens e nos lugares. A trama avança e o tempo também, mas a impressão que temos é que a história poderia ficar no mesmo lugar, sem pular de ano em ano. Essas transições abruptas ocasionam acontecimentos abruptos, com personagens chegando e partindo sem grandes explicações, surgindo novamente tempos depois como se não houvessem desaparecido. Os minutos finais, como dito anteriormente, também apresentam problemas justamente na passagem de tempo e na explicação dos fatos. A clara impressão que fica é que Petroni escreveu várias páginas de roteiro para amarrar as pontas e encerrar sua história, mas no final teve de cortar várias passagens para que o filme não se tornasse muito longo ou enfadonho. É uma pena, pois ali reside um encerramento interessante. De todo modo, A Menina que Roubava Livros tem boa direção e personagens bem desenvolvidos. Tem grandes chances de agradar aqueles que já conhecem a obra original ou aqueles que nunca tocaram no livro. De qualquer forma, é um bom filme, que funciona sendo apenas isso, independente de sua origem.

Apostas - Globo de Ouro






Melhor Filme – Drama

Vence: 12 Anos de Escravidão

Merece: 12 Anos de Escravidão

Gravidade é espetacular, mas 12 Anos de Escravidão é o drama do ano. É o tipo de filme completo, com cara de clássico. É uma das melhores batalhas pelo Oscar em anos. Qualquer um que ganhe será merecedor. No desempate – e por saber que a obra-prima de Alfonso Cuarón segue sendo Filhos da Esperança – fico com o longa de Steve McQueen.

Melhor Direção

Vence: Alfonso Cuarón por Gravidade

Merece: Alfonso Cuarón por Gravidade
O ano teve não um, mas três grandes trabalhos de direção: Cuarón, com Gravidade; McQueen, com 12 Anos de Escravidão e David O. Russel, com Trapaça. McQueen é um diretor que ainda pode provar muita coisa no futuro; além disso, seus filmes são difíceis, pesados, e os críticos do Globo de Ouro talvez não queiram premiar um cineasta assim. Alfonso Cuarón é estrangeiro e isso pode ajudar ou atrapalhar sua vitória. O Globo de Ouro é uma sociedade que se declara internacional, mas não sei o quanto isso é válido. Cuarón talvez não seja tão famoso quanto os votantes do Globo gostam.

Melhor Roteiro

Vence: Trapaça

Merece: 12 Anos de Escravidão

Vi apenas dois dos indicados – Trapaça e 12 Anos de Escravidão – então não posso dizer ao certo quem merece. Entre os dois, votaria no filme de McQueen.

Ator – Drama

Vence: Chiwetel Ejiofor por 12 anos de Escravidão

Merece: Chiwetel Ejiofor por 12 Anos de Escravidão

Não assisti Dallas Buyers Club ainda, e McConaughey teve umas quatro ou cinco grandes atuações nos últimos anos, mas Ejiofor está inacreditável em 12 Anos de Escravidão.

Atriz – Drama

Vence: Cate Blanchet por Blue Jasmine

Merece: Cate Blanchet por Blue Jasmine

Blue Jasmine não é o melhor filme de Woody Allen, mas a atuação de Blanchet é o cerne da obra.


Melhor Filme - Comédia/Musical

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Vence: Trapaça


Assisti apenas Trapaça, então prefiro não opinar, mas acredito que será o vencedor.

Ator – Comédia/Musical

Vence: Bruce Dern por Nebraska

Assisti apenas Trapaça, e gosto muito da atuação de Bale no filme, mas acredito que a briga esteja entre Dern e DiCaprio.

Atriz – Comédia/Musical

Vence: Amy Adams por Trapaça

Merece: Julie Delpy por Antes da Meia-Noite

Frances Ha e sua atriz são supervalorizados, Julia Louis-Dreyfus tem boa atuação, mas não merecedora de prêmios. Amy Adams talvez leve a melhor, mas Streep interpreta uma personagem forte. Talvez os votantes não queiram premiar a veterana pela enésima vez. Delpy é a merecedora do grupo.

Ator Coadjuvante

Vence: Jared Leto por Dallas Buyers Club

Não assisti a atuação do favorito e por isso acho que Fassbender merece o prêmio.

Atriz Coadjuvante

Vence: Lupita Nyong’o por 12 Anos de Escravidão

Merece: Lupita Nyong’o por 12 Anos de Escravidão

Não há o que dizer, Lupita Nyong’o é a melhor.

Trilha Sonora

Vence: Gravidade

Merece: Gravidade

É a melhor trilha do ano, e a que mais e melhor serve o seu filme. É um elemento importante da produção, tão importante quanto o roteiro ou as atuações, e isso não acontece nos outros indicados.

Filme Estrangeiro

Vence: Azul é a Cor Mais Quente

Merece: O Passado

Azul é a Cor Mais Quente parece ser o filme que os votantes do Globo amam premiar, mas não é o melhor dentre os cinco. Particularmente O Passado, de Asghar Farhadi, é um dos melhores e mais completos filmes de 2013, não importando o país onde foi feito.



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A versão estendida de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada tem 13 minutos de cenas novas, estendidas e/ou reeditadas. Diferente do que acontecia nas versões estendidas da Trilogia O Senhor dos Anéis, os minutos adicionais aqui inseridos não causam grande diferença. Não acontece aqui, por exemplo, o que aconteceu com a versão estendida de As Duas Torres, onde o ritmo do filme era amplamente beneficiado pelos 42 minutos extras. Não há, portanto, em O Hobbit uma grande alteração; a narrativa não fica mais ou menos fluida e o ritmo não é alterado. Em resumo, se você não gostou da versão original de Uma Jornada Inesperada, não assista a versão nova, pois ela não conserta nenhum erro considerável. Caso você tenha gostado, assim como eu, deste primeiro filme, a versão estendia pode ser uma boa opção, já que trás alguns detalhes interessantes para os fãs de O Senhor dos Anéis e de todo o Universo da Terra Média.

E é esta a graça dessa nova versão: detalhes, diálogos e pequenas cenas que agradam aqueles que são fãs. Pode ser encarada, também, como a versão definitiva de Peter Jackson, já que trás reedições em cenas que não funcionavam na primeira versão, e que puderam ser mais bem trabalhadas para este lançamento em DVD e Blu-Ray. Além disso, trás pequenas ligações com a trilogia original e alguns breves segundos que ligam sutilmente este primeiro capítulo ao segundo, A Desolação de Smaug. De todo modo, volto a frisar que esta versão estendida não se compara aos 48 minutos inseridos em O Retorno do Rei, por exemplo, que tornam o desfecho da trilogia original praticamente em um novo filme. Pode-se dizer que esta versão estendida de Uma Jornada Inesperada trás três ou quatro cenas muito interessantes, sendo duas delas realmente importantes ou, no mínimo, mais esclarecedoras.

A primeira cena adicional – e esta é uma das importantes – está inserida no prólogo em Erebor. O prólogo tem uma interessante nova cena envolvendo o antigo rei dos anões e Thranduil, onde Bilbo, através da narração em off, esclarece com mais detalhes o motivo da briga, da quebra da aliança entre elfos e anões. Bilbo diz que a fissura da parceria pode ter começado, segundo os elfos, pelo roubo de um tesouro pelos anões. Já na versão dos anões, os elfos não teriam oferecido o preço adequado por uma espécie de presente ou tesouro. A cena é importante – e deveria estar na versão original – por deixar mais claro o motivo que levou a omissão dos elfos durante o ataque de Smaug. Com essa pequena cena, toda a rixa que vem depois e a negação dos elfos ficam mais bem entendidas. O final da cena trás também um pequeno momento de Bilbo, expressando sua opinião negativa acerca das brigas entre anões e elfos.


Outra das cenas interessantes envolve Girion tentando acertar Smaug com as lanças que são mostradas em detalhes – e ganham importância – no segundo filme, A Desolação de Smaug. A cena é interessante por ligar sutilmente o primeiro ao segundo capítulo. É quase como um plano detalhe que se transforma em recompensa posteriormente na narrativa.

Uma cena também interessante, e que deveria constar na versão original, envolve Bifur e Bilbo durante o jantar logo no primeiro ato. Bifur é o anão que, basicamente, não fala inglês. Na cena nós podemos entender porque o sujeito não fala durante o filme, e quando emite algum som, trata-se de alguma palavra na antiga língua dos anões. São pequenos segundos que consertam um pequeno problema da versão original.

 

Outras duas pequenas cenas merecem atenção: a primeira, trás Bilbo fitando o Um Anel em uma pintura em Valfenda. A mesma pintura que aparece na trilogia original e trás Isildur lutando contra Sauron, que tem em um dos dedos o brilhante e chamativo Anel. A outra cena se passa durante o Conselho que conta com Gandalf, Galadriel, Elrond e Saruman. Nessa sequência, Gandalf comenta sobre o desaparecimento do último Anel mágico dos anões, e levanta a questão de Sauron e todo o perigo que ele representa. É uma boa adição, já que liga essa nova história à O Senhor dos Anéis e aproveita para lembrar um antigo e conhecido personagem, além de prever o que acontece nas aventuras posteriores.

Além disso, as demais cenas são adições divertidas, mas funcionam apenas como curiosidades. Em uma, podemos ver Bilbo quando criança, encontrando Gandalf pela primeira vez durante uma festa no Condado. Há uma cena adicional em Valfenda, onde Kili confunde um elfo com uma elfa; todos brincam insinuando que os elfos são todos iguais e possuem uma música muito melancólica. Isso leva Bofur a cantar. O detalhe da cena é que o anão sobe em uma espécie de bancada de pedra. Essa bancada é a mesma vista durante a formação da Sociedade em A Sociedade do Anel, e é nela que o Anel é colocado durante a reunião. Outra nova cena envolvendo uma nova música é inserida durante a sequência na cidade dos Goblins e trás o rei dos Goblins cantando uma estranha canção. É a inserção mais inútil de todas: a cena não funciona e a música é péssima.


Outras cenas adicionais envolvem Bilbo andando por Valfenda e conversando com Elrond; breves momentos inseridos na cidade dos Goblins – em um deles os anões tentam explicar porque foram parar ali –; Gandalf conversando com Elrond sobre Thorin; Bilbo fugindo de Gandalf enquanto faz compras na feira do Condado; os anões tomando banho em uma das fontes de Valfenda e algumas reedições em certas cenas. Essas novas edições são interessantes, pois trazem concertos técnicos nas sequências. Peter Jackson e sua equipe, com mais tempo para trabalhar, provavelmente resolverão ajustar algumas coisas. Algumas cenas trazem frames diferentes ou deletados; ou então pequenas cenas vistas de ângulos diferentes. Tudo isso feito para melhorar pequenos problemas de continuidade. Alguns pequenos momentos são colocados no lugar de outras cenas apenas para dar uma pequena fluidez visual. Coisas pequenas que talvez passem despercebidas pela maioria. 


Em resumo, essa versão estendida vale a pena para aqueles que são fãs do universo e gostaram da versão original do filme. Além disso, os boxes em DVD e Blu-Ray vêm cheios de extras. São várias horas de documentários e entrevistas que não devem em nada para os apêndices da trilogia original. O box é menor e mais discreto que os estojos individuais em DVD de O Senhor dos Anéis – Versão Estendida, mas é de um bom material e bem bonito. Caso não esteja interessado nos treze minutos adicionais do filme, vale pelos extras.




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Quentin Tarantino parece ter ficado mais ousado em seus últimos filmes. Não que Cães de Aluguel e Pulp Fiction não sejam filmes corajosos, longe disso, mas Bastardos Inglórios e Django Livre são filmes maiores. É só olhar para o tamanho do elenco de cada um destes novos filmes, a dimensão das histórias e o arco dos personagens para ver que Tarantino parece, agora, se arriscar um pouco mais no tamanho dos mundos que cria. Não é à toa que Bastardos e Django são filmes de época; um se passa durante a segunda guerra, o outro, pouco antes da guerra civil americana. E explorando esses novos universos que Taratino passa do grupo de diretores independentes para o grupo daqueles diretores que criam épicos, dramas de envergadura histórica e até mesmo política. É claro que o Cinema de Tarantino é diferenciado e muito se comenta que o diretor não se preocupa com todo o papo político que muitos o apregoam. É por isso que Django Livre está em uma categoria inominável: é um “filme sério”, mas com muito humor; é um drama forte, mas também um western tipicamente divertido. Têm tiroteio, tem o herói, o vilão, o amigo do herói e o amigo do vilão, tem a donzela em perigo e uma trilha sonora fantástica. Ah, e tem todo aquele visual do gênero que Tarantino cuida com atenção, como os zoom, por exemplo. Django Livre, para completar, ainda tem grandes atores em seus melhores momentos. Samuel L. Jackson arranca ótimas risadas como um negro racista, mas não serve apenas como um alívio cômico; Leonardo DiCaprio surge insano; pontas marcantes como as de Jonah Hill também valem à pena; mas o filme é realmente de Jammie Foxx e de Christoph Waltz, novamente roubando a cena. A amizade dos dois personagens é o que move a história deste que talvez seja o melhor filme de Quentin Tarantino.

 2º
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Muita gente tem elogiado Alfonso Cuarón e o chamando de gênio ou qualquer outro superlativo depois que assistem Gravidade. O fato é que Cuarón já mostrara talento em muitos outros filmes, e seu último trabalho talvez seja o melhor de sua carreira: Filhos da Esperança. O drama pós-apocalíptico fora o melhor filme daquele ano e injustamente ficou fora das categorias principais do Oscar. Naquele exemplar, Cuarón já mostrara seu talento para novas tecnologias (dentre elas uma câmera que se movimentava com facilidade dentro de um carro em movimento) e planos sequência (alguns dos melhores que você encontrará por aí). Agora o mexicano alça vôos maiores e para isso troca a terra pelo espaço na ficção científica mais elogiada em muito tempo. Gravidade é como muito já disseram: um filme de arte com cara de blockbuster, ou o inverso, se preferir. É o perfeito alinhamento entre narrativa e efeitos visuais impressionantes. É o uso impecável do 3D. É uma pequena aula de como movimentar uma câmera, de como criar um universo crível, praticamente palpável. É também o belo trabalho de uma atriz em completa dedicação. Um absoluto sucesso de crítica, aprovação quase que total de público, um estrondoso sucesso de bilheteria; a justiça tardou, mas não falhou com Alfonso Cuarón.


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Quando Céline, interpretada brilhantemente por Julie Delpy, diz a Jesse (Ethan Hawke, retornando ao papel de sua carreira), em certo momento de Antes da Meia-Noite, que não o ama mais, a fala da personagem dói no espectador que acompanhou de perto a história do casal desde 1995, em Antes do Amanhecer. A frase choca e causa mais reações no espectador do que muita cena explícita, gráfica, cheia de violência, efeitos visuais, cores e sons. Ficamos tão próximos dos personagens durante estes anos que quando ela diz isso não só sentimos que o relacionamento dos dois está estremecido, mas a nossa relação com aqueles dois seres também. É estranho. Sentimos medo, uma sensação ruim como se fosse o nosso próprio relacionamento de amor chegando ao fim. O que foi dito é verdade? Ou foi apenas da boca para fora? Talvez seja por isso que essa simples frase tenha todo este impacto: sendo verdade ou não, a simples presença desta constatação nos pensamentos de uma das partes do casal já é motivo suficiente para a luz amarela acender: alguma coisa de errado está acontecendo. E é interessante olharmos para os títulos dos três filmes e vermos que um antecedia o amanhecer, o início de um possível relacionamento; o segundo vinha antes do pôr-do-sol, quando as coisas ainda estavam bem, e antecediam a noite cheia de promessas. Este terceiro, porém, vem antes da meia-noite, onde a noite é mais escura e o que vem depois talvez não seja muito agradável. Jesse e Céline ficarão bem? Apelarão ao divórcio? Não podemos afirmar. Não sabíamos se eles se encontrariam, como combinado no final do primeiro, e também não sabíamos se Jesse voltaria para casa ao término do segundo. Talvez daqui a nove anos saibamos o que aconteceu.

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Dennis Villeneuve já havia mostrado habilidade na condução de histórias densas e cheias de reviravoltas. No ótimo Incêndios, por exemplo, indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, Villeneuve havia surpreendido com a inteligência com a qual revelava os segredos por trás da histórias cheia de camadas. Em Os Suspeitos Villeneuve aposta nas cores frias, no frio e na solidão de cada personagem para contar a história de duas famílias cujas filhas foram seqüestradas no dia de Ação de Graças. A investigação policial começa, mas a investigação pessoal de Hugh Jackman é que realmente surpreende. Em mais uma atuação magistral, Jackman desperta no espectador pena e raiva em questão de segundos. Ora sentimos a dor do pai desesperado em busca de sua filha, ora não acreditamos nos atos violentos do sujeito. Mas não é só Jackman que surpreende; Jake Gyllenhaal – que já teve grandes desempenhos em obras como O Segredo de Brokeback Mountain e Zodíaco, mas nunca reconhecido – encarna um personagem diferente de tudo que fizera até aqui. Adotando um cacoete que poderia estragar sua composição, Gyllenhaal comprime muita coisa que sequer é dita sobre o personagem. Paul Dano mais uma vez mergulha na insanidade de um personagem e enriquece a narrativa com a dubiedade de sua interpretação. Até Melissa Leo, uma atriz que realmente não gosto, faz um bom trabalho aqui. O final poderia investir um pouco mais na incerteza, deixando a resolução e as conclusões para o espectador, mas ainda assim é um grande desfecho para uma grande história.


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O reconhecimento que David O. Russel não recebera em 1999 por Três Reis parece ter vindo acumulado anos depois. Indicado ao Oscar e a vários prêmios por O Vencedor, Russel voltaria à premiação concorrendo por O Lado bom da Vida. E parece que o próximo Oscar contará novamente com a presença do diretor, agora por Trapaça, longa que reúne o elenco dos dois filmes anteriormente citados. Com ou sem prêmios ou apoio da crítica ou público, o fato é que Russel é um excelente roteirista e diretor. Dizem que é um sujeito arrogante, briguento e tudo mais, mas isso não afeta o seu talento, e isso, no final, é o que conta. O Lado bom da Vida talvez seja o melhor filme de sua curta, mas invejável carreira. Cheio de bom humor, esse longa singelo conta com uma história simples e um elenco fantástico. Todos aqui parecem estar em seus melhores momentos. Bradley Cooper mostra definitivamente ser um bom ator, Jennifer Lawrence surpreende ainda mais do que já havia mostrado em outros filmes, Jackie Weaver prova que a grande atuação de Reino Animal não foi sorte e Robert De Niro volta a ter uma ótima atuação em um grande filme depois de uns anos tentando estragar a carreira. Fugindo dos clichês sempre que possível, O Lado bom da Vida não consegue fugir de todos eles o tempo todo – como no final, que os abraça -, mas faz um excelente trabalho sempre que precisa recorrer dessas decisões mais corriqueiras. O bom está na história simples, mas muito bem contada. Nos personagens bem desenvolvidos e nas atuações memoráveis. E isso, aliado à direção certeira de Russel, faz deste pequeno, um grande filme.

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O estilo de Tom Hooper realmente me agrada. Diferente do que acontece com muitos, que criticam firmemente o trabalho visual do diretor, gosto de seu estilo meio torto e sem sentido. É um trabalho que ele vem desenvolvendo ao longo dos anos. Goste ou não é uma marca do cineasta. É impossível não reconhecer um filme ou série de Hooper. John Adams, minissérie da HBO dirigida por Hooper, parece um ensaio para Os Miseráveis. Com apelo visual quase idêntico ao do musical, o programa de TV contava com todos os planos inclinados, todas as lentes e distorções típicas do diretor de O Discurso do Rei. Em Maldito Futebol Clube, outro excelente exemplar de sua curta carreira, Hooper estava mais contido, mas também testava a abordagem em algumas sequências. A aprovação desse estilo veio com a vitória no Oscar por O Discurso do Rei. Com mais dinheiro e confiança de estúdios e produtores Hooper resolve levar às telas o celebrado musical Les Misérables. E é claro que depois de o trabalho ser aprovado, o negócio é repeti-lo. E, particularmente, não há decepções. O diretor acerta no comando dos atores e na abordagem visual. Peca um pouquinho no ritmo? Sim, levemente no terceiro ato, mas não compromete em nada a experiência. Todos os atores cantam bem? Não. Mas convencem e se entregam ao máximo, que é o que vale. Ao fim, Os Miseráveis á um musical legítimo, à moda antiga, com superprodução, direção de arte incrível, ótimo elenco e canções do início ao fim.


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Paul Greengrass é outro diretor com estilo muito próprio. É difícil imaginá-lo dirigindo um filme como Os Miseráveis, assim como é difícil imaginar Hooper dirigindo algo como Capitão Philips. Greengrass é o responsável, basicamente, por nos lembrar o quão fantástico é Tom Hanks. Ancorado na realidade, Greengrass emula algumas coisas daquela que é sua melhor obra: United 93. Sempre com a câmera trêmula e perto dos personagens e da ação, Greengrass compõe uma tensa narrativa, e mais uma vez em espaços reduzidos. Se em United 93 a ação se passava toda dentro do avião, aqui a trama se desenvolve basicamente em dois lugares. Mas o ritmo não cai, o que admirável, já que muitos filmes que contam com vários personagens e cenários falham miseravelmente na condução das cenas e narrativas. É claro que muito desse dinamismo vem da edição. Christopher Rouse é o responsável pelas edições de United 93 e O Ultimato Bourne; Rouse recebeu indicações ao Oscar por estes dois filmes e venceu pelo segundo. O trabalho do editor parece casar perfeitamente com o editor. Trabalhar na edição de um filme de Greengrass, aliás, deve requerer um grau considerável de entendimento entre as partes, já que grande parte do efeito dos longas vem do dinamismo, do ritmos das cenas isoladas e dentro do contexto geral. A excelente trilha sonora é outro fator determinante no completo funcionamento do filme. Mas não há fatores técnicos que substituam ou mudem a força da última cena. Está ali, naqueles últimos minutos, um dos momentos mais marcantes de toda a carreira de Tom Hanks.

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Paul Thomas Anderson já não precisa provar mais nada a ninguém. Com pouca idade provavelmente já lançou sua obra-prima (dificilmente um filme seu será tão perfeito quanto Sangue Negro) e outros filmes inesquecíveis. Não há um tropeço sequer até agora, e caso aja no futuro, duvido que vá manchar a sua curta, mas brilhante carreira. Diferente de tudo que fizera até aqui (como é comum quando falamos em PTA, que muda o tema a cada filme), O Mestre trás o estilo de filmagem e a abordagem já consolidada de Anderson. Além disso, conta com um roteiro corajoso, que não teme a má interpretação ou o completo descaso do espectador. O Mestre é um filme difícil; longo e com uma edição que não facilita a vida de quem assiste, o filme é mais uma prova de que PTA é um autor completo. Além de ótimo cineasta, é também ótimo escritor. A fotografia é fantástica e a trilha sonora é tão estranha quanto a de Sangue Negro, o que não é, claro, um defeito. Anderson também arranca, mais uma vez, atuações extraordinárias de seu elenco. A começar por Joaquim Phoenix, irreconhecível dentro do personagem. Philip Seymour Hoffman mostra mais uma vez ser um dos melhores de sua geração e Amy Adams mais uma vez tenta se desfazer do jeitinho meigo e frágil que alguns filmes pintaram para ela. A sequência de perguntas e respostas entre Hoffman e Phoenix em que o último deve responder sem piscar era o suficiente para dar o Oscar para os dois atores. Mas as grandes sequências não param por aí. Hoffman brilha em mais dois momentos memoráveis. Em um deles, vai mostrando aos poucos um lado que até então não conhecíamos enquanto discute com um homem que teima em discordar de suas crenças e pregações. Em outro dança e canta enquanto o personagem de Phoenix tem uma estranha visão. Assim como em Sangue Negro, O Mestre tem vários grandes momentos, quase que como clímax isolados durante a trama que, juntos, formam uma grande experiência.


 
Killer Joe poderia ser um curta-metragem, centrado apenas no clímax deste longa e assim já seria um grande exercício narrativo. Mas a sorte é que muito mais é trabalhado na trama e felizmente um diretor como William Friedkin dirige um texto rico e perturbador como o de Tracy Lets. A segunda parceira do diretor com o autor é baseada na peça homônima de 1993 – a primeira de Lets – e conta a história de um rapaz que decide contratar um assassino profissional para matar a mãe, ficando, posteriormente, com o dinheiro da mulher. Isto é o suficiente para que Lets crie uma insana história cheia de reviravoltas e um final indescritível. William Friedkin, notavelmente sádico, é, portanto, o diretor perfeito para levar Killer Joe às telas. Mas não é só um trabalho de Friedkin e Lets, o elenco de Killer Joe é um dos melhores vistos este ano. Matthew McConaughey, que tem outra grande atuação no ótimo Amor Bandido, encarna Joe como se este fosse o papel de sua vida. Thomas Haden Church, excelente ator subestimado, Juno Temple, Gina Gershon e Emile Hirsch estão ótimos em seus papeis. O já citado clímax é algo quase inexplicável. Tudo converge ali, todo o elenco está ali. A força e a dinâmica do teatro, berço de Lets, pode ser vista em cada ato, em cada palavra. Pontos altos na carreira de todos os envolvidos.

10º

François Ozon parece brincar de direção em Dentro da Casa, tamanha fluidez das cenas. Os reflexos, os enquadramentos, as sequências. Ozon não só entrega um grande roteiro, como um excelente trabalho se direção. Numa trama quase que metalingüística, Ozon prende a atenção do público com a relação de um professor e seu aluno. O professor é um escritor fracassado, o jovem, um escritor em potencial. Juntos, debatem sobre a importância de personagens e como estes devem agir ou o que deve acontecer com eles para que a trama funcione plenamente e prenda o leitor. Conversam sobre os temas que devem ser abordados e o que talvez não funcione. É um interessante exercício que levanta questões importantes. É a construção de uma história dentro de uma história. Mais um excelente exemplar francês em um ano de Azul é a cor mais quente e Le Passé.

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Outros títulos que merecem destaque:

Amor
Amor Bandido
A Aventura de Kon-Tiki
Azul é a cor mais quente
Bernie
Blue Jasmine 
A Caça
Círculo de Fogo
Depois de Lúcia
 O Hobbit - A Desolação de Smaug
Indomável Sonhadora
Invocação do Mal 
Jogos Vorazes - Em Chamas
Lincoln 
O Lugar onde tudo termina
Muito Barulho por Nada
Rush - No Limite da Emoção
O Verão da Minha Vida

Grandes filmes que ainda não chegaram oficialmente ao Brasil:

O Passado, de Asghar Farhadi (um dos cinco melhores que assisti em 2013)
Upstream Color, de Shane Carruth
Fruitvale Station, de Ryan Coogler
The Spectacular Now, de James Ponsoldt
Byzantium, de Neil Jordan
 

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